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Crítica | AJ and the Queen (Netflix, 1ª Temporada): todos, digam amor!


Em parceria com a Netflix, RuPaul, uma das drag queens mais bem-sucedidas do mundo, após ser responsável por reinserir a cultura drag no cenário mainstream com seu exitoso reality show, decide investir em sua própria série ficcional: “AJ and the Queen”. A supermodelo e apresentadora, agora encarna outra queen, mas mantendo sua essência e filosofia, que traz o amor – próprio e entre a família que escolhemos – como pauta central.
A série conta a história de Ruby Red (RuPaul Charles), uma drag queen de Nova Iorque que está prestes a realizar seu sonho de abrir a própria boate com o dinheiro que economizou com muito suor, até que seu sócio e namorado, Hector Ramirez (Josh Segarra), desaparece com todas as suas economias. Ruby, que não poderia mais voltar para a antiga boate, decide partir numa turnê pelos Estados Unidos, com destino final em Dallas, onde deseja participar de um concurso que premiará a vencedora com uma boa quantia de dinheiro. Porém ela não contava que ao pegar a estrada com seu trailer, uma criança – AJ (Izzy G.) – que mora no apartamento acima do seu, estaria pegando carona escondida com o propósito de chegar ao Texas. AJ vivia de esmolas e trambiques para sobreviver, já que sua mãe desaparecera devido ao seu problema com drogas, deixando-a em situação de fome e dívidas de aluguel que culminaram em despejo. A esperança de AJ é encontrar um avô que conhecera apenas por cartas. O temperamento arredio da criança colocará Ruby em situações enervantes, enquanto uma dupla perigosa começará a persegui-los.

A história não tem nada de muito original, é a versão drag queen dos road movies em que uma criança é madura demais para sua idade, difícil de ser controlada, que ao mesmo tempo vai interferir nos planos do adulto e transformá-lo como pessoa. O diferencial dessa jornada de evolução e mútuo aprendizado é a combinação inusitada da dupla: uma criança de dez anos ao lado de um homem gay que vive de suas performances noturnas. Em uma sociedade, ainda extremamente conservadora, que pena em avançar no debate de papéis de gênero e sexualidade dentro das escolas, AJ e Ruby, apenas por estarem lado a lado, já desafiam o público a quebrar a casca, mostrando que não podemos mais ignorar que as pessoas LGBT+ existem e, queiram ou não, nossos pequenos vão conviver com elas (quando não já são uma delas). Enquanto uns se preocupam em vetar essa parte importante da educação dos infantes alegando ser uma forma de protegê-las, muitos vivem uma situação similar a de AJ e são completamente invisibilizadas.

Assim, a série trata de assuntos que são muito densos e importantes – como dependência química, prostituição, identidade de gênero, sexualidade, padrões estéticos, depressão, desigualdade social, homofobia, entre outros – com muita leveza e naturalidade, apenas convidando o espectador a observar e constatar que esses temas existem e fazem parte da realidade de muitas pessoas. Afinal, RuPaul faz parte do processo criativo da obra e ele carrega para o roteiro seu estilo de vida e essa aura um tanto maternalista, um tanto autoajuda, que já é notório em seus outros trabalhos. Com isso, há uma visão positivista no modo de enfrentar as crises e em meio às situações dramáticas, o tom é sempre elevado à alegria que uma drag queen é capaz de proporcionar com sua arte.

Quem está acostumado com “RuPaul’s Drag Race”, facilmente entenderá a linguagem e humor da série, com muitas piadas de trocadilho e é claro, shades. Várias participantes do reality também estão presentes, algumas apenas fazendo breves aparições, outras interpretando personagens maiores e inclusive performando com versões de suas drags, dentre elas, Latrice Royale, Bianca del Rio, Chad Michaels, Katya, Ginger Minj e muitas outras. Porém o grande presente que essa obra oferece são as performances de RuPaul, já que atualmente é cada vez mais raro vê-lo montado e mesmo em seu premiado programa de TV suas aparições em drag se limitam a breves desfiles. Na série, fica eternamente registrado para uma audiência que não pôde acompanhar os tempos áureos da supermodelo, a artista dublando, dançando e executando vários clássicos do universo das queens.

Embora o episódio de abertura possa afastar a audiência por conter atuações um pouco forçadas e diálogos plásticos, a sinergia entre RuPaul, Izzy G. e Michael-Leon Wooley (como Louis Bell, uma drag queen que se aposentou por perder a visão) deixa o público investido na série. E nos episódios seguintes, essas questões são contornadas. No entanto, o roteiro desperdiça oportunidades de conflito, deixando a narrativa morna. Até momentos que problemas acontecem no caminho da dupla, são rapidamente contornados. Além disso, seus antagonistas são fracos, pois não contribuem para o movimento da história, suas narrativas poderiam ter sido facilmente descartadas nos primeiros episódios. E não é como se não houvesse tempo para trabalhar esses pontos, pois os episódios são longos, de quase uma hora de duração.

Mesmo com alguns problemas e abordando temas sérios, “AJ and the Queen” é uma série feel good, com vários momentos doces e leves. Além de aproveitar as cenas musicais com um repertório bem nostálgico é uma boa pedida para quem deseja curtir momentos simples e sentir aquele quentinho no coração. Afinal, Ruby Red pensa que entrou em seu trailer para recuperar o dinheiro que perdeu, mas a verdadeira história pertence a AJ, uma criança que, no fundo, quer apenas resgatar o amor que precisa. E juntos, essa dupla encontrará diversas formas de amor, em lugares inimagináveis.



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